Violência policial esquenta reta final da campanha para eleições legislativas na França

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Políticos de esquerda e de direita trocam acusações sobre supostos abusos dos agentes e uma doutrina persistente de uso da força endossada pelo atual governo. Serviços de emergência atendem vítimas de disparos efetuados pela policia em Paris, em 4 de junho de 2022
AFP
A cinco dias do primeiro turno das eleições legislativas na França, o tema da violência policial faz uma irrupção barulhenta na campanha. Em um intervalo de poucas semanas, três pessoas morreram em Paris atingidas por disparos de policiais que usaram suas armas em controles de trânsito. Políticos de esquerda e de direita trocam acusações sobre supostos abusos dos agentes e uma doutrina persistente de uso da força endossada pelo atual governo.
No último sábado (3), um grupo de três policiais — dois homens e uma mulher — que circulavam de bicicleta no movimentado bairro de Montmartre (18° distrito de Paris) abriram fogo contra um carro, cujo motorista desobedeceu à ordem de parar, depois de ser visto sem o cinto de segurança.
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Havia quatro pessoas no veículo. Na fuga, o carro teria entrado na contramão de uma rua e ficado bloqueado num cruzamento, segundo os passageiros que estavam no banco traseiro.
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Os policiais efetuaram nove disparos contra o carro, alegando que o motorista teria tentado atropelar os agentes. A patrulha evocou uma situação de legítima defesa. O motorista ficou gravemente ferido e uma mulher de 22 anos, que estava no banco da frente, morreu depois de ser baleada na cabeça. Ela chegou a ser hospitalizada, mas não resistiu ao ferimento.
Testemunhas discordam da versão apresentada pelos agentes. Dizem que o carro não tentou fugir em alta velocidade.
Essa perseguição policial à luz do dia, às 11h em um bairro movimentado da capital, acontece um mês depois de um outro policial ter sido indiciado por homicídio doloso, após ter atirado contra dois homens que estavam em um carro no Pont Neuf, no centro de Paris. Os dois ocupantes do veículo morreram no local. Neste episódio, o policial também alegou que agiu em legítima defesa, mas as investigações consideraram que as mortes poderiam ter sido evitadas.
Entre esses dois casos polêmicos, ocorridos em circunstâncias duvidosas, o mundo assistiu perplexo às cenas de violência policial na final da Liga dos Campeões, no Stade de France, no final de maio. 
Os distúrbios diante do estádio deixaram muitos franceses perplexos, sem falar no estrago de imagem para a França no mundo: torcedores pressionados, assaltos, uso de gás lacrimogêneo, violência policial.
Policiais são liberados
Após 48 horas de interrogatório, os três policiais envolvidos no incidente de sábado, em Montmartre, foram liberados sem acusações. A justiça abriu duas investigações. 
O motorista de 38 anos, que ficou gravemente ferido, é suspeito de “tentativa de homicídio de uma pessoa com autoridade pública”, anunciou a Promotoria. Os policiais insistem na versão de que ele tentou atropelar os agentes antes de fugir.
A imprensa relata um caso similar registrado nesta madrugada em Argenteuil, na região parisiense. O jornal Le Parisien traz reportagem sobre outro incidente, na noite de sábado (3), no qual a polícia usou gás lacrimogêneo para dispersar passageiros que tentavam embarcar em um ônibus na estação Gare de L’Est, depois que trens foram cancelados devido às chuvas. 
Mélenchon: “A polícia mata”Esses episódios deram munição para Jean-Luc Mélenchon, articulador de uma bem-sucedida aliança de partidos de esquerda (Nupes), acentuar os ataques contra o governo. “A polícia mata”, escreveu o político de extrema esquerda, nesta terça-feira (7), no Twitter. No campo adversário, opositores de direita dizem que “a polícia se defende”. 
“Eu nunca fui antipolícia. Sou contra o uso desproporcional da violência”, tuitou ainda Mélenchon. Mas o fundador do partido França Insubmissa, derrotado na última eleição presidencial, aproveita para relançar um debate que divide a opinião pública.
“Chávez francês”Mélenchon, que busca com sua frente de esquerda conquistar a maioria das cadeiras na Assembleia Nacional nas eleições de 12 e 19 de junho, tenta elevar ao máximo a tensão com Macron e seus aliados. O esquerdista tem dito que se a Nupes sair vencedora, ele deve ser nomeado como o novo primeiro-ministro francês.  
O ministro do Interior, Gérald Darmanin, rebate, dizendo que “insultar” os policiais “desonra quem deseja governar”.
“Jean-Luc Mélenchon está sempre do lado dos bandidos, dos criminosos. Ele nunca está do lado das forças de segurança”, disse a líder de extrema direita Marine Le Pen, que disputa o posto de principal opositora de Macron.
As pesquisas indicam uma nova vitória do governo nas legislativas, mas com a possibilidade de ficar sem a maioria absoluta da qual desfruta desde 2017. A frente de esquerda de Mélenchon ficaria em segundo lugar, seguida de longe pela extrema direita de Le Pen e da direita tradicional. 
Conquistar a maioria na Assembleia Nacional é essencial para que Macron consiga implementar a impopular reforma das aposentadorias, que pretende aumentar a idade mínima de 62 para 65 anos, e os investimentos no setor de energia nuclear.
Diante do avanço da esquerda, os partidos aliados do presidente intensificaram os ataques a Mélenchon, que também enfrenta as críticas de pesos pesados do Partido Socialista (PS), descontentes com a aliança com comunistas, ecologistas e a esquerda radical.
Os resultados do primeiro turno já realizado nas circunscrições eleitorais dos franceses residentes no exterior indicam um duelo entre os partidários de Macron e uma esquerda que promete, em troca, antecipar a aposentadoria para 60 anos e impor medidas contra os ricos.
“Jean-Luc Mélenchon é um Chávez francês”, disse o ministro da Economia francês, Bruno Le Maire, em uma entrevista recente, em uma referência ao ex-presidente venezuelano Hugo Chávez, morto em 2013.
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Fonte: G1 Mundo