Pessoas com deficiência apontam problemas e pontos positivos da acessibilidade no Rock in Rio

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Visitantes PCDs reclamaram do número disponível de cadeiras de rodas, da falta de sinalização, de banheiros sem fiscalização e da distância da área de cadeirantes para o Palco Mundo. Como pontos positivos, fãs elogiaram linguagem de libras, espaço ‘Sinta o som’ e pulseiras de identificação. Público passa cadeira de rodas perto do Palco Sunset
Marcos Serra Lima/g1
O Rock in Rio chega ao seu quinto dia nesta sexta-feira (9) e, ao longo do festival, o g1 conversou com pessoas com deficiência (PCDs) que apontaram erros e acertos do evento em relação a acessibilidade.
Entre as críticas estão reclamações sobre número disponível de cadeiras de rodas, da falta de sinalização, dos banheiros sem fiscalização e da distância da área para cadeirantes para o Palco Mundo. Já os elogios foram para a tradução dos shows para a linguagem de libras nos shows e o serviço “Sinta o som”, um espaço para deficientes auditivos sentirem a vibração do palco e as pulseiras de identificação.
A advogada Cintia Queiroz durante o show do Alok, na área PCD
Arquivo pessoal
Ao longo das edições, o Rock in Rio era tradição na família da advogada Cintia Queiroz, de 46 anos. Neste ano, o festival tinha um significado diferente: a comemoração por ela estar viva, agora como uma pessoa com deficiência. Mas ela diz que a acessibilidade do evento não foi como ela esperava.
No sábado (3), Cintia foi com a afilhada e os primos para assistir ao show do Post Malone, headliner do Palco Mundo. Com uma lesão permanente e uma prótese na coluna, ela contava com a cadeira de rodas fornecida pelo festival, mas, ao chegar, não havia mais disponíveis.
“Estávamos combinando isso (o festival) desde que eu tive alta do hospital em 2020. Era nossa comemoração por eu ter sobrevivido a uma infecção extremamente resistente, a quatro cirurgias na coluna e quase quatro meses de internação no hospital.”
A organização do festival informou que tem mais de 80 cadeiras disponíveis e que o empréstimo ao público é feito sob demanda (leia mais ao final desta reportagem).
Cintia Queiroz e alguns dos familiares que foram com ela ao Rock in Rio
Arquivo pessoal
Cintia explica que chegou às 13h no Shopping Metropolitano para garantir a “tag” de acesso ao estacionamento preferencial, mas a funcionária só encontrou com ela depois de 14h – horário da abertura dos portões.
A advogada ainda sentiu falta de pessoas do evento que soubessem lhe informar como chegar até o estacionamento, assim como se guiar dentro do evento para as áreas PCD até a hora da saída. Em meio ao trânsito na Avenida Abelardo Bueno, foram duas horas até Cintia conseguir parar o carro.
“Quando cheguei lá, não tinha mais cadeiras de rodas. Ali eu quase chorei, porque eu falei: ‘Ferrou, não vou conseguir ficar no evento. Como eu vou ficar no evento sem conseguir sentar no chão, sem conseguir andar muito?’”, relembra.
Devido à lesão ser recente, Cintia ainda sente bastante dor ao fazer esforço. Ela então teve a ajuda dos familiares para se deslocar pelo festival e localizar a área PCD para cadeirantes. A advogada conta que ficou a maior parte do tempo sentada em um sofá, próximo a um restaurante.
“A ideia é melhorar o que eles estão fazendo, é deixar mais fácil, porque eu tenho limitações, mas não são tantas assim, imagino quem tem muita limitação como deve ser difícil”, descreve.
Cintia e a família dela no Rock in Rio
Arquivo pessoal
Falta de kits para PCDs
A falta de sinalização para se deslocar do Shopping Metropolitano até o estacionamento do festival também foi um problema enfrentado pelo programador Cristiano Lopes, na sexta-feira (2). O carioca, de 28 anos, deixou a própria cadeira de rodas no carro para usar a que seria oferecida pelo evento, mas também já estavam esgotadas quando ele chegou.
Cristiano Lopes no Rock in Rio na sexta-feira (2)
Arquivo pessoal
“Precisava da minha cadeira, o evento não tinha cadeiras disponíveis para me oferecer”, afirma. O jovem teve que retornar ao estacionamento para buscar a cadeira de rodas. Nesse meio tempo, ele perdeu shows que gostaria de assistir, como o do Matanza, do Ratos de Porão e do Sepultura.
Já Caio Sonegheti Marinato, de 20 anos, que veio de Linhares, no interior Espírito Santo, com a mãe, a professora Sabrina Sonegheti, de 39, conta que conseguiu o acesso ao kit de acessibilidade – inclusive um triciclo para o deslocamento – após colocar o nome na lista de espera no sábado – dia em que foi ao Rock in Rio. Ele conta que isso transformou a experiência do festival para ele.
“Com o kit livre, chegou dar quentinho no coração, porque vi Caio totalmente independente e feliz circulando pelo evento. Pensei: ‘Que maravilha’. Meu relógio marcou que andamos quase 16 quilômetros lá dentro, é muito e seria impossível sem o kit livre”, descreve a mãe.
Caio Sonegheti Marinato, de 20 anos, na Cidade do Rock
Arquivo pessoal
Deslocamento pelo festival
O dia até chegar ao Rock in Rio foi longo para Caio e Sabrina. Eles saíram de casa à 1h30 para pegar um avião em Vitória, antes de 5h30. O Rock in Rio foi um presente atrasado do aniversário de 18 anos do jovem.
Só que, chegando ao festival, antes de 16h, Caio enfatiza que a lotação do festival prejudicou o deslocamento pelo evento.
Porém, ele ressalta que a pulseira de identificação “cumpriu o seu papel”, para não enfrentar filas nos estandes e nos espaços de comida.
Caio com equipamento disponibilizado pelo evento
Arquivo pessoal
Na saída, ele precisava de um carrinho para levá-lo junto com a sua mãe até o ônibus do evento, mas lidou ainda com a falta de sinalização e de informação da equipe. Caio afirma que teve que andar cerca de 2 quilômetros até chegar ao ônibus.
“Se fosse ano passado, que não estava amputado, eu não ia conseguir andar, não sei como eu ia sair de lá.”
Caio teve um câncer ósseo aos 10 anos e, em fevereiro deste ano, amputou a perna direita, que já não era mais funcional e lhe causava dores crônicas.
No ônibus Primeira Classe, outro problema: o motorista queria deixá-los a sete minutos do Aeroporto Santos Dumont, alegando que seria o ponto final. Após reclamações dos passageiros, eles conseguiram chegar ao destino desejado.
“Queria que o atendimento aos PCDs fosse melhor. Vejo que meu filho aceita essas falhas porque, se não for assim, não faz nada. Mas, como mãe, quero para ele um mundo sem barreiras e, quando não for possível, que ele tenha os meios de ultrapassá-las”, diz Sabrina.
Caio e Sabrina no Rock in Rio
Arquivo pessoal
Banheiros sem fiscalização
O festival disponibiliza uma pulseira de identificação para PCDs. Só que, no Dia do Metal, Cristiano reparou que não havia fiscalização para o banheiro preferencial. Com isso, o carioca afirma que situações de desrespeito e até mesmo a entrada de casais, sem a pulseira, nesses espaços.
Já Caio exaltou o espaço dos banheiros para cadeirantes: “O banheiro cumpriu o que um banheiro PCD tem que ter, tinha barra, era enorme, [a pessoa] conseguia se deslocar de cadeiras de rodas, de muletas”.
Pulseira PCD
Arquivo pessoal/Caio Sonegheti Marinato
Distância do Palco Mundo
O estudante paulista Vagner Augusto, de 22 anos, saiu de excursão de Guaratinguetá, em São Paulo, com os pais para assistir ao Iron Maiden, na sexta-feira. Foram cinco horas de ônibus até o Rio. Ele queria ficar o mais perto possível dos ídolos.
Na entrada do Rock in Rio, o primeiro problema: ele não conseguiu entrar primeiro que os demais visitantes do festival. O evento havia informado que a fila preferencial entraria antes das pessoas que tinham o Rock in Rio Club, às 13h30, mas só foi liberada às 14h, junto ao restante do público.
Ao encontrar a área PCD destinada a cadeirantes no Palco Mundo, ele diz que se frustrou com a distância para o palco. A organização, entretanto, alega que era a distância autorizada pelos bombeiros (veja no fim da reportagem as explicações do evento).
Vagner Augusto no Rock in Rio
Laura Rocha/g1 Rio
Visão da área PCD para cadeirantes
Arquivo pessoal/Caio Sonegheti Marinato
Área PCD para cadeirantes
Laura Rocha/g1 Rio
‘Sinta o Som’ e libras
Kitana Dreams comemora shows com acessibilidade no Rock in Rio
Stephanie Rodrigues/ g1
A drag queen Kitana Dreams, que é surda, afirmou que ficou emocionada e contente em poder assistir aos shows com intérpretes de libras – a Linguagem Brasileira de Sinais.
“Eu já vim em outras edições do Rock In Rio e essa é a primeira vez que vejo com intérprete de Libras. Eu fico emocionada e muito feliz de ver que eles estão dando essa importância pra acessibilidade de pessoas surdas. Mesmo em outros festivais grandes, eu não vejo muito essa dedicação e o Rock In Rio está levantando essa pauta de uma forma muito positiva”.
Já a biomédica Vanessa Terra, de 33 anos, que é surda bilateral e usa aparelho auditivo e implante coclear. Mas, no festival, ela teve dificuldades de encontrar, na sexta-feira, a área destinada a pessoas com deficiência auditiva e visual: “Sinta o Som”.
Vanessa Terra na área PCD destinada a pessoas com deficiência visual ou auditiva
Arquivo pessoal
“Nesse posto de acessibilidade, não obtive resposta. Havia poucos funcionários atendendo e um deles me disse que outra pessoa que não estava no local poderia me dar informações sobre essa área”, relembra.”
Vanessa conta que teve que procurar o espaço por conta própria e só conseguiu entrar nele 15 minutos antes do show do Iron Maiden, a penúltima atração da noite.
Apesar dos problemas, ela exaltou o local, em que os ouvidos dela conseguiram captar perfeitamente o som, próximo aos ídolos dela.
“No final deu tudo certo, só fiquei chateada pelo perrengue de chegar até lá e faltando 15 minutos para ver a minha banda preferida”, conta.
Já no domingo (4), uma outra visitante teve uma experiência positiva nessa área. Ela tem visão monocular, e teve auxílio de um funcionário para ajudá-la a entrar no local e acompanhar os shows que queria.
A jovem ainda ressaltou que, no espaço, o som era bem alto e havia bastante vibração, o que ajudaria pessoas com deficiência auditiva.
Vanessa com o baterista da banda Dream Theater
Arquivo pessoal
O que diz o festival
O g1 entrou em contato com o Rock in Rio a respeito dos problemas relatados e perguntou sobre possíveis mudanças para os próximos dias.
A organização do festival informou que existem 40 cadeiras de rodas motorizadas, 40 cadeiras manuais e ainda 6 scooters, ou seja, 86 cadeiras para empréstimo, que é feito sob demanda.
Disse ainda que a equipe de apoio foi reforçada e está sendo aumentada para a operação dos próximos dias, de modo a melhorar ainda mais o atendimento ao público PCD.
Sobre a distância da plataforma para o Palco Mundo, os organizadores explicam que essa é a distância segura liberada pelos Bombeiros. Ela fica lateralizada por medida de segurança, caso seja preciso esvaziar o local em uma emergência.
A organização informou ainda que a plataforma tem uma boa visibilidade do palco e fica próxima à saída de emergência e a banheiros acessíveis.

Fonte: G1 Entretenimento