Lar de quilombolas, cenário de novela, deserto tocantinense: entenda o que é o Jalapão e a polêmica sobre a concessão do parque

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A imensa unidade de conservação ambiental acabou se tornando o principal destino de ecoturismo do Tocantins e agora é alvo de um controverso projeto de exploração comercial dos atrativos. Jalapão é o principal atrativo turístico do Tocantins
Heitor Moreira/TV Anhanguera
Nas rodas de conversa em cidades que ficam no Jalapão o assunto nesta quarta-feira (25) é um só: O projeto recém-aprovado na Assembleia Legislativa para conceder o Parque Estadual à iniciativa privada e o que esta proposta vai significar para o futuro da comunidade. No momento, há mais perguntas do que respostas sobre a concessão, já que o modelo que será utilizado ainda não foi definido.
Enquanto ainda não é possível avaliar com clareza quais serão os efeitos, é importante entender o que de fato é o Jalapão, quem vive lá e porque, entre todas as concessões aprovadas na AL, essa é a mais polêmica.
Que lugar é esse?
Colheita do Capim Dourado é celebrada todos os anos pela comunidade do Mumbuca
Esequias Araújo
A maioria dos brasileiros conhece o Jalapão apenas pelas imagens dos atrativos turísticos, como as enormes dunas em meio ao cerrado ou as águas azuis e cristalinas dos fervedouros. O parque no entanto é muito maior e abrange áreas em que vivem diversas comunidades.
É importante não confundir o Parque Estadual do Jalapão com a Área de Preservação Ambiental (APA) de mesmo nome.
A APA Jalapão abrange o território de quatro cidades e compreende uma área imensa no leste do Tocantins, praticamente do mesmo tamanho do estado de Sergipe. Nela são permitidas atividades econômicas, incluindo o agronegócio, mas com algumas restrições e o controle mais rígido do uso de agrotóxicos, por exemplo.
Já o parque, criado em 2001, é uma área de conservação integral. Fica na zona rural da cidade de Mateiros e não pode ser explorado, a não ser para o ecoturismo e pesquisas sobre biodiversidade.
Mateiros abriga as famílias que moram na região do Jalapão
Régio Parente/TV Anhanguera
No Parque Estadual existem sete comunidades quilombolas reconhecidas. É uma população que durante muito tempo teve dificuldade para sobreviver por conta da pobreza e do isolamento na região. No começo dos anos 2000 encontraram no turismo e na venda de artesanato com capim dourado uma fonte de renda. Atualmente, todo o sistema econômico das comunidades depende destes dois pilares.
O paraíso vira cenário de novela
Clara (Bianca Bin) e Gael (Sérgio Guizé) no Jalapão
Raquel Cunha/Rede Globo/Divulgação
O turismo é uma atividade que cresceu rapidamente no Jalapão nos últimos 20 anos. Antes um rincão praticamente desconhecido do Brasil, o local se tornou o principal símbolo do Tocantins e o epicentro de um movimento para estimular a visitação dos atrativos naturais. O auge desse processo veio entre 2017 e 2018, quando o parque se tornou cenário para a novela ‘O Outro Lado do Paraíso’, grande sucesso da Rede Globo no horário de 21h.
Imagens com os personagens Clara (Bianca Bin) e Gael (Sergio Guizé) trocando juras de amor na Pedra Furada, passeando pelas dunas ou se banhando nos fervedouros correram o país. A partir dai, aumentou ainda mais o interesse pelas aventuras que o Jalapão pode proporcionar.
Como funciona a visitação hoje?
Cachoeira da Velha no Jalaoão
Reprodução/TV Anhanguera
Atualmente, há dois tipos de atrativos no Jalapão. Os que são administrados por moradores da região e estão em áreas privadas e aqueles administrados pelo Instituto Natureza do Tocantins (Naturatins).
Nas atrações sob administração do Estado, há algumas regras de visitação em vigor por causa da pandemia. As dunas, cachoeira da Velha e a prainha do rio Novo têm limitação de 300 pessoas por dia, já a subida da serra do Espírito Santo pode ser realizada por no máximo 200 pessoas diariamente. Apenas quem está acompanhado de guias cadastrados no Naturatins consegue entrar e é necessário agendar o horário.
Nas atrações privadas, como os fervedouros, a cachoeira do Formiga e outros, as restrições ficam a cargo de cada proprietário. Na região é comum que os administradores negociem com as agências de viagens passes prioritários para quem está acompanhado de guias.
O secretário Claudinei Quaresemin, que cuida do processo de concessão, vem dizendo que o projeto abrange apenas as áreas que atualmente estão sob o controle do Estado. Ele descartou a possibilidade de desapropriar áreas privadas para repassá-las a outras empresas.
E porque o projeto é tão polêmico?
Jalapão sofre com o isolamento e a dificuldade de acesso
Heitor Moreira/TV Anhanguera
As comunidades quilombolas reclamam que não estão sendo sobre esta questão. Os moradores dependem da visitação dos turistas nos povoados e das vendas do artesanato de capim dourado para sobreviver. O principal medo é que os moradores precisem competir com grandes empresas atuando nas áreas concedidas pela atenção dos turistas.
Há ainda a questão ambiental. O parque já teve flagrantes de desmatamento ilegal e sofre anualmente no período de saca com as queimadas. A unidade de conservação é o lar de espécies criticamente ameaçadas de extinção e por isso o aumento da atividade turística também é motivo de preocupação. O projeto de concessão não tira do estado o controle o sobre a fiscalização ambiental, mas atualmente já há dificuldades por causa dos problemas estruturais e do tamanho do parque em si,
Uma das maiores dificuldades dos moradores do Jalapão hoje é o isolamento. Não há estradas pavimentadas na região e apena sum trecho de 50 quilômetros tem previsão de ser asfaltado ainda este ano. As cidades próximas também não têm estruturas como hospitais de referência ou universidades, por exemplo. A comunidade ainda não sabe como uma concessão pode ajudar a resolver qualquer um destes problemas.
Queimadas controladas no Jalapão servem para evitar grandes incêncios
Fernando Alves/Governo do Tocantins
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Fonte: G1 Tocantins