Chefe das Forças Armadas dos EUA alertou China para saúde mental de Trump, diz livro

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Mark Milley ordenou, em reunião secreta no Pentágono, que subordinados não agiriam sem o seu consentimento caso o então presidente americano desse qualquer ordem para usar arsenal nuclear. General Mark Milley, chefe do Estado Maior dos EUA, em entrevista coletiva em 18 de agosto de 2021
Yuri Gripas/Reuters
O chefe das Forças Armadas dos Estados Unidos estava tão alarmado em janeiro deste ano com a saúde mental de Donald Trump que tomou medidas secretas para evitar que o então presidente americano desencadeasse uma guerra com a China, revela um novo livro.
O general Mark Milley, chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA, ordenou que seus subordinados não agissem imediatamente caso Trump desse qualquer ordem para usar o arsenal nuclear americano, segundo os jornalistas Bob Woodward e Robert Costa.
Milley também entrou em contato com o general chinês Li Zuocheng para tranquilizar o maior rival dos EUA. As medidas foram tomadas após a derrota de Trump para o atual presidente americano, Joe Biden, e dias após a invasão do Capitólio.
O jornal “Washington Post”, onde ambos os jornalistas trabalham, divulgaram na terça-feira (14) trechos do livro “Peril” que mostram Milley organizando o Pentágono e a comunidade de inteligência americana para resistirem a qualquer eventual movimento errático de Trump.
Fardado, o general Mark Milley (direita) acompanha o presidente Donald Trump e sua comitiva em caminhada até a igreja St. John, em Washington
Patrick Semansky/AP
Milley telefonou duas vezes para Zuocheng: a primeira em 30 de outubro de 2020, dias antes da eleição, e em 8 de janeiro de 2021, depois que apoiadores de Trump invadiram o Congresso americano.
Em ambas ligações, Milley procurou assegurar à China que a retórica de Trump não levaria a ações militares.
Preocupação nuclear
Dois meses depois, Milley recorreu ao canal secreto com Li, em meio à preocupação de Washington e Pequim com a instabilidade emocional de Trump. Para acalmar os chineses, Milley chegou a fazer com que o Comando Indo-Pacífico adiasse exercícios militares que Pequim poderia considerar uma ameaça.
Separadamente, Milley disse aos principais membros de sua equipe que eles deveriam informá-lo antes de tudo se Trump buscasse exercer seu poder para ordenar um ataque nuclear.
Milley também conversou com outros funcionários do alto escalão, como a diretora da CIA, Gina Haspel, e o chefe da Agência de Segurança Nacional, Paul Nakasone, sobre a necessidade de eles se manterem vigilantes ante a possibilidade de Trump agir de forma irracional.
“Alguns poderiam argumentar que Milley extrapolou sua autoridade e atribuiu a si um poder extraordinário”, dizem os jornalistas. Mas ele acreditava que estava agindo corretamente “para garantir que não houvesse uma ruptura histórica na ordem internacional, tampouco uma guerra acidental com a China ou outros, nem o uso de armas nucleares”, assinalam.
O Pentágono não quis comentar o assunto, mas Trump usou palavras duras contra Milley e o culpou pela retirada caótica do Afeganistão no mês passado: “Suponho que será julgado por traição, porque teria estado negociando com o colega chinês pelas costas do presidente.”
‘Está louco’
Milley fez a segunda ligação para Li depois que a presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, entrou em contato com ele para discutir a saúde mental de Trump e a recusa do mesmo a reconhecer a vitória eleitoral de Joe Biden.
Dois dias antes, incentivados por Trump, centenas de apoiadores do então presidente haviam invadido o Congresso. Woodward e Costa obtiveram uma transcrição do telefonema de Pelosi.
“Que precauções estão disponíveis para evitar que um presidente instável inicie hostilidades militares ou acesse códigos de lançamento e ordene um ataque nuclear?”, perguntou a presidente da câmara. “Se não puderam impedi-lo de invadir o Capitólio, quem sabe o que mais ele poderá fazer?”, questionou. “Está louco, você sabe que sim, e o que ele fez ontem é mais uma prova da sua loucura.”
O sistema tem “muitos controles” para evitar o comportamento extremo do presidente, respondeu Milley, acrescentando: “Concordo com você em tudo.”
Congressistas republicanos não demoraram a atacar Milley, e o senador Marco Rubio pediu ao presidente Joe Biden que destitua o general.
Defensor de Trump, Rubio alegou que Milley “trabalhou para minar ativamente o comandante-em-chefe das Forças Armadas dos Estados Unidos e contemplou um vazamento traiçoeiro para o Partido Comunista Chinês de informações classificadas. Essas ações do general Milley mostram uma falta clara de bom senso e lhes peço que o demitam imediatamente”, diz o senador em carta ao presidente.

Fonte: G1 Mundo