Ucraniana vai voltar para Europa por falta de auxílio do governo brasileiro; em 100 dias de guerra, país recebeu 176 refugiados

0
114

Com barreira da língua, refugiados afirmam que não receberam informações sobre como conseguir moradia ou trabalho e vivem de favor; procurado, o Itamaraty e o Ministério da Justiça não responderam as críticas. Prédio em que Iaroslava Moroz vivia na Ucrânia e foi bombardeado na guerra
Arquivo pessoal
Foram só dois meses e meio no Brasil até a ucraniana Iaroslava Moroz, de 44 anos, e a sua filha de 18 anos decidirem embarcar no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, neste sábado (4) de volta para a Europa, logo após a guerra na Ucrânia completar 100 dias. O destino é a Alemanha, país em que ela acredita que terá mais auxílio como refugiada. Aqui, o visto humanitário foi o máximo que elas conseguiram.
Após o início do conflito, em 24 de fevereiro, o presidente Jair Bolsonaro (PL) assinou uma ordem executiva permitindo que cidadãos ucranianos e apátridas deslocados pela guerra vivam e trabalhem no país com visto humanitário. Aviões da FAB (Força Aérea Brasileira) foram enviados para buscar os brasileiros e também ucranianos que desejassem vir para cá.
Iaroslava tinha amigos brasileiros e decidiu embarcar. Foi uma das poucas.
LEIA TAMBÉM:
Após 100 dias de guerra, diplomata ucraniano apela para que países parem de importar da Rússia
Autoridades da ONU alertam para possível crise alimentar no mundo devido à guerra na Ucrânia
Até o momento, o Ministério das Relações Exteriores concedeu apenas 176 vistos temporários para acolhida humanitária de ucranianos.
Já segundo o Ministério da Justiça, foram 194 ucranianos que desembarcaram no país –137 pediram autorizações de residência, 42 de vistos humanitários com autorização de residência e 15 solicitaram refúgio. Do total, 72 foram para o Paraná.
Segundo o Itamaraty, ao menos outros 230 brasileiros conseguiram sair da Ucrânia e ir para países fronteiriços, principalmente a Polônia e a Romênia. Só 55 brasileiros decidiram retornar para o país, tanto nos aviões da FAB quanto em voos comerciais.
A GloboNews conversou com vários dos refugiados. Eles são unânimes em afirmar que não receberam informações suficientes nem nenhum tipo de auxílio do governo federal – nem financeiro, de moradia ou para se recolocar no mercado de trabalho.
Por isso, seguem, após quase três meses, em casas de parentes ou amigos, e parte deles quer retornar aos países europeus, onde esperam receber mais apoio.
“Os refugiados ucranianos chegam no Brasil sem falar português e, muitas vezes, nem inglês, e sentem muita dificuldade com a língua”, afirma Anna Smirnova, 42, uma linguista russa que tem ajudado ucranianos em São Paulo, onde criou um curso para ensinar português a nativos do leste europeu.
E emenda: “Alguns são trazidos de maneira centralizada pelas igrejas. Para eles, as igrejas alugam apartamentos e ajudam com toda a burocracia. Mas para quem chega sozinho, não há ajuda do governo brasileiro após receber a autorização de residência. Fazer documentos de acolhida humanitária é rápido, mas depois as pessoas não sabem aonde ir, o que fazer, e a ajuda só vem de outras pessoas ou ONGs”.
É Anna que auxiliou Iaroslava a embarcar para a Alemanha, onde a ucraniana afirma que receberá do governo cerca de 400 euros por mês, além de moradia temporária e a chance de fazer parte de um programa de busca por vagas de trabalho.
“Tem uma grande falta de informação, eu não sei aonde ir para me informar sobre emprego, aonde ir para me informar sobre ajuda médica. E não somente eu, todos os ucranianos”, diz Iaroslava, que ficou esses dois meses em Curitiba, onde buscava uma psiquiatra para a filha, com depressão após viver os horrores da guerra, e não conseguiu.
“Eu entendo que os refugiados ucranianos não são muitos aqui, e o Brasil não está preparado como outros países, onde tem uma grande quantidade de refugiados e já tem um sistema de apoio que funciona bem”, diz ela.
Procurado, os ministérios das Relações Exteriores e da Justiça, responsáveis pelos trâmites de imigração, não responderam às críticas até a última atualização desta reportagem.
Na Ucrânia, Iaroslava e a filha viviam a cerca de 10 quilômetros de Kiev, a capital. Ela era empresária.
“Até o último momento, não acreditávamos que ia ter guerra. Estava todo mundo dormindo, às 4 horas da manhã, quando ouvimos barulhos de aviões e explosões. Ficamos apavorados. Só acreditamos quando chegaram os tanques russos e começaram a atirar contra os prédios. Eles viam que tinham pessoas inocentes dentro dos prédios, mas mesmo assim atiravam”, conta ela, emocionada, enquanto mostra os vídeos do fogo e dos escombros.
Antes da guerra, entre janeiro de 2010 e dezembro de 2021, mais de 3.300 ucranianos registraram residência no país. Quase 2.300 registros de residência foram realizados na região Sudeste, principal destino dos imigrantes ucranianos. Juntamente com os poloneses, os ucranianos compõem o maior contingente de imigrantes eslavos por aqui, segundo o Ministério da Justiça.
“É uma pena deixar o Brasil, que é um país muito bonito. Mas não conseguimos ajuda. Fizemos tudo com a ajuda de voluntários”, diz a ucraniana.
Ela e a filha já tentaram embarcar na última semana, mas não conseguiram.
Isso porque, quando vieram, trouxeram os dois gatos da família, com autorizações especiais da embaixada brasileira por causa da situação emergencial. Mas, ao chegar a Guarulhos com os bilhetes para a Alemanha, descobriram que precisavam ter dado a vacina da raiva nos bichanos, além de uma autorização internacional de viagem — burocracia que demoraria mais dois meses.
Neste sábado (4), as duas e os gatos irão tentar novamente passar pelo embarque, desta vez com um documento especial do consulado da Ucrânia. “Estamos apreensivas, esperamos que dê tudo certo”, diz Iaroslava.
Segundo a ordem assinada por Bolsonaro, os ucranianos recebem um visto temporário de 180 dias dentro de 90 dias da chegada, que pode ser estendido para um visto de residência temporária por até dois anos. Depois desse período, eles poderão solicitar a residência permanente.
Os requerentes têm até 31 de agosto para solicitar os vistos, afirma a ordem.
VÍDEOS: Tudo sobre São Paulo e região metropolitana

Fonte: G1 Mundo